Cá entre nós: quantas vezes você já adiou seus objetivos alegando não ter tempo suficiente?
Talvez tenha desistido de fazer exercícios em um dia porque só tinha 20 ou 30 minutos, e achou que, sem uma hora inteirinha, não valeria a pena.
Ou, quem sabe, pegou um livro para ler, mas viu que tinha somente cinco minutos disponíveis e pensou: “O que vou conseguir em tão pouco tempo? Melhor deixar para depois.”
O resultado? Você não leu.
E aquelas vezes em que alguém apontou uma falha sua e você ficou muito incomodado/a? Talvez tenha se defendido, ou até se fechado, quando poderia ter escolhido acolher a crítica com maturidade.
Sem falar naquelas vezes em que você foi em extremo teimoso/a, julgando estar com a razão e fazendo pouco ou nenhum caso das opiniões dos outros.
Essas situações podem parecer banais, corriqueiras e até naturais para a maioria das pessoas, mas revelam algo profundo: a necessidade de buscar a virtude da humildade.
Vou explicar melhor…
Quando desistimos de dar um pequeno passo porque as condições não são perfeitas, podemos estar agindo com soberba — o vício oposto a humildade. É como se disséssemos que a realidade diante de nós não é boa o suficiente. Apenas o cenário ideal, aquele que planejamos, merece o nosso esforço.
Seres humanos não são deuses! Não podemos moldar a realidade à nossa vontade. O que podemos — e esse é o nosso verdadeiro poder — é fazer o melhor com o que temos em nossas mãos. Mas para isso ocorrer, precisamos aceitar a realidade como ela é, com todas as suas nuances.
Desde que o pecado entrou no mundo, a soberba corre em nossas veias como um veneno.
A humildade é o antídoto mais eficaz.
No entanto, sejamos francos, ser de fato humilde não é simples. Exige de nós muito esforço, prática e muita, muita paciência.
Como desistir não é uma opção para quem verdadeiramente busca crescer — e se você está lendo este artigo, é o seu caso — será necessário se exercitar desde as pequenas coisas, desprender-se de si e lutar diariamente para sair vencedor.
Não existe efetivo processo de desenvolvimento humano sem a prática da humildade.
Você está prestes a compreender como essa virtude pode ser a base de uma vida mais realizada e feliz.
Continue a leitura e permita-se dar mais esse passo no seu desenvolvimento.
O que você lerá?
- O que é a humildade?
- Máscaras de humildade?
- Como é a atitude humilde?
- Benefícios de ser humilde
- Conclusão
- Referências bibliográficas
O que é a humildade?

A humildade é a verdade, já dizia Santa Tereza D’Ávila. Para ela, a humildade consiste em reconhecer a verdade sobre si, ou seja, entender quem realmente somos e isso só compreenderemos se considerarmos como Deus nos vê.
A falta de humildade é uma lente embaçada com a qual enxergamos o mundo e a nós mesmos. Por mais que nos esforcemos, a lente suja não nos permitirá enxergar a verdade.
O ponto inicial de todo processo de desenvolvimento pessoal é enxergar o mais claramente possível quem somos verdadeiramente e aquilo que precisa ser corrigido. Para isso a lente precisa estar limpa.
O padre Francisco Faus no seu livro A conquista das virtudes afirma que o orgulho estraga todas as virtudes, mas é a humildade que as faz reviver.
No palácio da nossa personalidade a virtude da humildade está no alicerce, sem ela nenhuma outra virtude é possível já que o prédio tenderá a desabar.
“A humildade é a base e o fundamento de todas as virtudes, e sem ela não há nenhuma que o seja.”
Miguel de Cervantes
Máscaras de humildade?

O ser humano, em suas inúmeras possibilidades, pode escolher viver de maneira autêntica — o que é esperado — ou adotar máscaras que distorcem sua verdadeira essência. Uma dessas máscaras pode ser a falsa humildade.
Provavelmente você já encontrou — ou até conviveu — com pessoas que têm o hábito de se autodepreciar. No entanto, com um pouco de atenção e convivência, percebe-se que essas palavras não refletem o que elas pensam realmente de si mesmas.
No fundo, o que elas procuram é alimentar um ego faminto, usando a autodepreciação como uma estratégia para receber elogios e validação.
Isso está longe de ser humildade!
“Portanto, Filoteia, é este o meu parecer; ou não digamos palavras de humildade, ou digamo-las com verdadeiro sentimento interior, conforme ao que interiormente pronunciamos; nunca baixemos os olhos sem humilhar o coração, não demos a entender que queremos ser os últimos, quando de bom grado quereríamos ser os primeiros.”
São Francisco de Sales, livro Filoteia
Tudo aquilo que sai da nossa boca a respeito de nós mesmos, mas não encontra eco em nosso coração, não passa de vaidade!
A verdadeira humildade é silenciosa, sincera e, sobretudo, enraizada na verdade.
Como é a atitude humilde?

Quanto mais humildes formos, maior será nossa compreensão sobre nós mesmos e sobre o mundo que nos cerca.
Por isso, podemos afirmar que as pessoas humildes possuem uma inteligência mais aguçada.
O oposto também é verdadeiro. Quanto mais soberbos, mais limitada será nossa percepção.
Para facilitar o reconhecimento dessa virtude, elencarei algumas atitudes que são próprias de alguém verdadeiramente humilde.
Atitudes próprias do humilde:
1. A última preocupação de uma pessoa verdadeiramente humilde é ser vista como humilde.
Ela não age para projetar uma imagem de virtude ou para impressionar os outros com sua suposta humildade.
“A verdadeira humildade não faz cara de o ser, e diz até muito poucas palavras sobre a humildade. Porque não só deseja ocultar as outras virtudes, mas também e principalmente ocultar-se a si mesma.”
São Francisco de Sales, Filoteia
2. O verdadeiramente humilde será alegre.
Ele compreende que tudo o que possui é uma graça imerecida e, mesmo que sua vida não seja perfeita, encontra motivos para agradecer e se alegrar.
3. Ele reconhece o valor do ser humano.
Reconhece o valor de si e dos outros. Por isso, demonstra interesse genuíno pelas pessoas ouvindo-as com atenção.
Ele entende que cada um tem dons e talentos únicos e admira a beleza que existe nisso.
4. Ele não se sente superior nem inferior a ninguém.
Compreende que possui talentos superiores em alguns aspectos, enquanto outras pessoas o superam em tantas outras áreas.
Essa percepção o mantém em equilíbrio e livre de comparações desgastantes.
5. Ele tem uma autoestima equilibrada.
Sabe bem quem é, reconhece suas qualidades, porém sem deixar de mirar no que pode se tornar.
Seu olhar é limpo: nem orgulhoso, nem depreciativo, mas sempre voltado ao autoconhecimento e à melhoria contínua.
6. Ele não se abala com críticas nem se exalta com elogios.
Quando criticado, ouve com atenção. Se a crítica é verdadeira, enxerga nela uma oportunidade de crescimento, já que não se preocupa em manter uma imagem intocável. Se a crítica é injusta, simplesmente não se importa, entendendo que a opinião alheia está fora de seu controle.
Quanto aos elogios, aceita-os com naturalidade, mas prefere não ser exaltado. Contudo, se sua exaltação beneficia outras pessoas — como as que estão sob seus cuidados, acolhe-a com gratidão e responsabilidade.
7. Ele é sereno e realista sobre quem é e aonde já chegou.
Não se atormenta pelo que ainda não conquistou nem se vangloria pelo que já possui. Vive com tranquilidade, consciente de que seu valor não depende das circunstâncias ou conquistas.
Benefícios de ser humilde

E para te convencer a buscar essa grande virtude — e a ler o próximo artigo que trará dicas valiosas para você desenvolver a virtude da humildade — elencarei alguns dos muitos benefícios de ser uma pessoa humilde.
Benefícios:
- Liberdade emocional: A humildade nos proporciona a liberdade de não precisarmos esconder nossos defeitos, permitindo-nos ser autênticos.
- Relações sinceras: Ela nos permite ter amigos leais ao nosso lado, pois o humilde ouve com atenção, sem a postura de réu, uma orientação, ou o conselho de alguém que apenas está querendo nos ajudar.
- Resiliência: A humildade nos torna mais resilientes, pois aceitamos nossos fracassos e erros sem nos deixar abater pela vergonha e celebramos nossas conquistas sem cair na armadilha do orgulho.
- Crescimento contínuo: A humildade nos abre para o aprendizado constante, permitindo que aprendamos com nossos erros e com os outros, o que nos ajuda a evoluir.
- Paz interior: Ao aceitar nossas limitações e ser gratos pelo que temos, encontramos uma paz interior que nos ajuda a enfrentar os desafios da vida com serenidade.
- Comunhão com Deus: A humildade nos aproxima de Deus, pois reconhecemos nossa dependência d’Ele. Portanto, nos abrimos a Sua graça, permitindo que Sua Presença transforme nossas vidas.

Buscar a virtude da humildade é tarefa para toda a vida. Trata-se de um caminho contínuo, mas essencial para aqueles que desejam se desenvolver como pessoas, ser mais felizes e viver em maior comunhão com Deus e com os outros.
O chamado à humildade é universal, um convite que se aceito nos transforma e nos aproxima da Verdade. Aceite esse chamado e persevere, mesmo que seus passos pareçam pequenos ou imperfeitos. O mais importante não é a perfeição imediata, mas a constância na luta.
Não desanime!
E, ainda que você não alcance a vitória plena, que Deus te encontre em pé, perseverando com coragem, como alguém que decidiu não apenas existir, mas viver em contínuo aprimoramento em direção aquilo que você foi chamado a ser.
Fique por aqui! No próximo artigo darei dicas preciosas de como desenvolver esta virtude tão necessária ao nosso desenvolvimento.
Referências bibliográficas
As citações presentes no artigo e as reflexões foram inspiradas nos seguintes livros:
Boa leitura! ❥